II Encontro Literário “Viajar com Camilo Castelo Branco"

Da WikiCamilo

por Joaquim Matias da Silva

20 de Outubro de 2007. Um sábado de manhã, pelas 8.15 horas. Eram essas a data e as horas acordadas para dar início ao II Encontro Literário “Viajar com...Camilo Castelo Branco”, numa organização do Conselho Executivo da Escola Secundária Camilo Castelo Branco [1], do Centro de Estudos Camilianos, da Equipa Educativa da Biblioteca da Escola e do Departamento V. Pedia-se fervorosamente para que as condições atmosféricas não pregassem nenhuma partida, antes se associassem à festa. E o que é certo é que os 34 participantes nesta jornada camiliana foram bafejados à entrada do autocarro por um sol radiante e carinhoso, mais próprio de um Verão que teima em não se esvair do que da estação calmosa de Outono que parece não ter canseiras em fazer valer o calendário e os seus ditames meteorológicos.

Ainda a meia das oito horas e meia não tinha soado na torre do sino e já o autocarro se arrastava pressuroso pelas boas e novíssimas vias de comunicação que desembocam em Vila Real, as quais fariam, certamente, inveja aos transeuntes das antigas e perigosas veredas do século XIX, caso eles, transportados por uma qualquer máquina mágica do tempo, pudessem cá voltar (Deus os guarde!...). Ora, foi exactamente para esta cidade transmontana que Camilo fora recambiado pelo conselho familiar, aos dez anos de idade, desfeita que estava a casa paterna em Lisboa, – “como um ninho espedaçado por um furacão” (Camilo, in Boémia do Espírito) –, ao não sobreviver à morte imprevista da mãe, logo seguida pela não menos inesperada morte do pai. Após uma rocambolesca viagem (primeiro, de barco, até Vigo; depois, a pé, de diligência, de burro ou de cavalo, percorrendo as distâncias infindáveis entre Vigo-Valença-Ponte de Lima-Braga-Bom Jesus-Cabeceiras-Vila Real), Camilo inicia o seu errante itinerário nortenho, no momento preciso em que foi enviado a parentes que nunca tinha visto, para uma cidade que lhe era completamente estranha.

Chegados a Vila Real, os elementos que participavam neste II Encontro Literário, sugestionados pelas leituras e pelas palavras do Dr. José Manuel Oliveira, responsável pelo Centro de Estudos Camilianos, viajaram com… Camilo, ressuscitando, num jogo mnemónico, fantasmas que alimentaram e povoaram a fértil, ainda que intricada, película a preto e branco da infância e adolescência do escritor, ora em frente da Casa dos Brocas, um palacete mandado edificar pelo avô de Camilo e que este último pouco terá frequentado, ora no entroncamento das ruas D. Margarida Alves Carvalho e Isabel Carvalho, local pouco simpático para o nosso romancista, uma vez que “o pacífico cidadão Camillo Castello Branco” (in O Nacional) viu, em 1847, o seu corpo e a sua alma serem esquentados por umas valentes cacetadas, infligidas pelo “caceteiro” (ibidem) Olhos de Boi, a mando de um tal “senhor caprino”(ibidem) – porque Cabral era de apelido e José de nome –, Governador Civil de Vila Real, para premiar, já nessa altura, os irreverentes dotes artísticos e sentimentais de Camilo.

Costas voltadas a Vila Real, o autocarro rumou, depois, a Vilarinho da Samardã, com uma paragem no Fojo do Lobo, situado na vertente montanhosa que domina a Samardã. Aí, os visitantes puderam admirar uma construção única, curiosa e perfeitamente funcional, tendo em vista a finalidade a que se destinava: a captura e subsequente morte de lobos. Trata-se de uma área circular, cercada por um muro de blocos de granito ("calhaus a esmo", diz Camilo) até à altura aproximada de dois metros. O bordo superior do muro era recoberto de grandes lajes (“cápias”, na linguagem popular), formando uma espécie de beiral para o lado de dentro, destinado a impossibilitar o salto para o exterior do lobo ali aprisionado. Para a sua captura, introduzia-se uma rês (cabra ou ovelha) tinhosa e velha, no cercado, através duma entrada que ainda é possível ver a sul. Algum tempo depois, era forçoso que algum lobo viesse e pulasse para dentro do fojo, para devorar a presa. Saltar para dentro era fácil. Mas sair era impossível, em grande parte devido ao tal beiral que se referiu. Uma vez o lobo capturado, vinham homens que o matavam a tiro ou mesmo à pedrada.

Já no interior de Vilarinho de Samardã, os visitantes foram presenteados com a visão de uma bem simpática aldeia transmontana, possuidora de muitos motivos de interesse a nível cultural, arquitectónico e paisagístico. Foi nesta aldeia, em casa da irmã Carolina, casada com o futuro médico Francisco José de Azevedo, que Camilo passou os primeiros e únicos felizes anos da sua mocidade. A Casa dos Azevedos e a Igreja da aldeia foram locais visitados, antes de ser servido um opíparo e retemperador almoço no restaurante Passos Perdidos, no decurso do qual todos puderam deliciar-se com as iguarias gastronómicas da região.

Acomodados os apetites estomáquicos, estava chegada a hora de partida para Ribeira de Pena, local onde Camilo trabalhou como escrevente de notário, entre 1841 e 1842, tendo aí aperfeiçoado também o Latim, com o Pe. Manuel da Lixa, e refinado o seu dom-joanismo desalmado, apanhando nas suas teias concupiscentes as moças mais incautas, ou sentimentalmente mais carentes, das redondezas. Que o diga, a título de exemplo, Joaquina Pereira de França, uma rapariga de 15 anos de idade, com quem Camilo casou na Igreja Matriz do Divino Salvador, em Ribeira de Pena, para logo a abandonar com uma filha no ventre.

Nas cercanias desta vila, os visitantes mais afoitos tiveram a oportunidade de atravessar a Ponte de arame sobre o rio Tâmega, numa pequena aventura a lembrar cenas emocionantes de Indiana Jones. Um pouco mais à frente, na Aldeia de Bragadas, a Casa do Barroso, com o seu pórtico tão despropositado quanto magnificente (esteve na origem do conto “História de Uma Porta”, in Noites de Lamego), a sua colunata da varanda e o seu brasão majestoso e descomunal, mereceu uma atenção especial.

Já o sol se escondia no horizonte serrano, quando foi atravessada a Ponte de Cavez, sobre o rio Tâmega. Construída no século XIII, está classificada como Monumento Nacional desde 1910 e liga as províncias do Minho e de Trás-os-Montes e Alto Douro.
O regresso a Famalicão aconteceu cerca de 12 horas depois da partida, assim se completando um ciclo (II Encontro Literário) não defraudador das expectativas de todos os intervenientes, que certamente ficaram mais sabedores do contínuo e dramático peregrinar de Camilo por terras nortenhas e conhecedores das marcas impressivas e indeléveis que as gentes, as tradições, o folclore e as paisagens do Norte de Portugal deixaram nas obras imorredouras legadas, para a posteridade, pelo patrono desta Escola.

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